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Solstício particular

  • 29 de jan. de 2017
  • 1 min de leitura


Já é dia, lá fora. Sei porque entre as andanças que a insônia me causou notei a luz alaranjada do Sol na janela da cozinha enquanto bebia o quinto ou sexto copo d'Água das duas ultimas horas. Como se houvesse algum calmante místico no solvente universal, não sei, esperava que diluísse as angústias acumuladas. Qual o quê. É dia lá fora. Noite, aqui dentro. Noite nublada, daquelas em que nem se a gente tentar muito, torcer, pedir aos céus, enxerga uma estrelazinha sequer. Noites nubladas são ruins porque nos tiram o poder de contemplação. Mas é bem verdade também que ando de birra com a lua, porque seu último presságio foi o que me trouxe até as noites como essa. Lembro-me com a clareza deste sétimo copo de água, que agora levanto pra buscar, da noite em que a Lua Cheia rompeu no céu de janeiro pra encher meu coração de dúvidas, e de uma certeza. Ela brilhava pra mim, eu sei, como quem diz "prepare-se, é noite". Sei, porque tem assim tem sido, desde então. Ouço agora passarinhos saudando a manhã. Parem! Parem! Parem os pássaros, os passageiros que sobem nos ônibus e os passeios com os cachorros. Parem, é noite! Posso ouvi-los, todos, abraçando o novo dia. Como podem? Como ousam seguir com os negócios da vida, enquanto eu ainda nem sonhei? Amanhecem um a um, eu os ouço, os vejo pela janela, subindo as portas do comércio, no décimo copo. Ah, dia, como eu queria tivesses chegado para mim também.

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