Adeline
- 26 de mai. de 2017
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Às 8 da manhã daquela terça-feira eu não consegui dizer. Você estava em pé em frente a minha cama, pegou aquela blusa xadrez azul marinho que estava na cômoda e saiu correndo. No meio do seu desespero desvairado, dessa raiva contida, eu não consegui dizer. Já devo estar na décima garrafa de vinho. Já devo ter perdido minha dignidade. Perdi você, e rolei Augusta abaixo. Aqui da Roosevelt consigo ver teu prédio, o bar que ficamos a primeira vez e tua bike preta presa no bicicletário. Eu aprendi a andar de bicicleta por você, lembra?
Hoje faz um mês e eu não consigo te esquecer. Não consigo usar aquele batom vermelho que você dizia amar em mim. Não consigo mais pular as poças na rua como fazíamos no centro. Troquei aquela cômoda e minha cama de lugar. Cansei de tentar tirar você e não conseguir. Você está no reflexo da água no chão, naquela árvore no Ibirapuera, no fundo de todas as garrafas. Sigo bebendo. Sigo olhando as poças. Sigo tudo que me remete a você.
Mas você cortou o cabelo, mudou suas roupas. Soube que anda saindo com outros e eu entendo. E agora que você seguiu sua vida, soa injusto aparecer novamente para expor meus sentimentos. Você seguiu, mas eu não, então espero que me compreenda também.
Espero de verdade que continue dançando tango como dançava comigo. E que continue pulando poças, indo ao cinema para reclamar dos giros de câmera e da paleta de cor. Espero que continue com aquele sorriso que me deixava sem ar e com as crises de riso que me faziam duvidar se era melhor largar o jornalismo e fizer Stand up.
Enquanto isso, sigo na décima primeira garrafa de vinho. Sigo na Roosevelt, no bicicletário, na porta do bar. E não é ruim, enquanto ainda estiver em minha cabeça que eu continuo com você.

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