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O que acontece quando um amor acaba

  • 23 de jun. de 2017
  • 2 min de leitura

Um dia o amor acabou. Levou um tempo até que percebessem. Um dia, notei que a rotina pesava, que a ausência causava alívio. O amor está morto, pensei. Antes ele do que eu.

Segui a agenda, voltei pra casa no fim da tarde. Bebi café, pra dar coragem. Rabisquei um bilhete de despedida. Joguei fora. Achei que pudesse estar precipitando as coisas. Uma noite mais, um último fôlego, eu precisava tentar. Não deu. Era domingo, procurei o rapaz e lhe disse -ei, o amor acabou. Ele acatou a notícia como quem sente muito. Quis evitar o inevitável. Ele também já havia percebido. Choramos. Eu, porque sempre choro. Ele, porque nunca chora. Um pouco de barulho. Morri algumas vezes até acordar na manhã seguinte. O relógio, insensível, bradou às seis como de costume. Eu estava triste, mas o dia... ah, o dia continuava ensolarado tanto quanto qualquer outro do verão tropical. Eu não quero falar sobre isso. Repeti. Quinze vezes em único dia, eu contei.

Descobri que a única coisa capaz de atrair olhares atentos e aflitos tão rápido quanto uma história de amor, é uma história de desamor. Vai ver a gente gosta de ouvir porque se compadece, se identifica ou só porque não se aguenta de curiosidade mesmo.

Um dia, precisei falar sobre isso. Todo mundo quis saber a causa mortis e eu nem havia tido tempo de pensar sobre a autopsia. Falência múltipla de órgãos, chutei. Não deu certo. É a vida. Acontece. Me esquivei. Nas semanas seguintes, sorri com a dose de condescendência mais alta que já me abrigou o corpo. Não, não sinta muito. Por favor, pare de inclinar a cabeça pra falar comigo. Aguentei cada uma das perguntas invasivas. Faz parte do processo, disseram. Sofri como quem perde alguém. Não há metáfora para isso, desculpe-me.

Até que um dia, encontrei fotos no fundo de uma gaveta. Não foi uma dessas cenas novelescas, era só mais um dia de faxina no quarto. Não teve lágrima silenciosa, saudade desesperadora ou peito dilacerado. Porque na vida real essas coisas não acontecem. O amor nem sempre ressuscita. Olhei por alguns segundos, senti saudade da memória estampada ali e fui almoçar. É claro que o fim dói, sempre dói. Mas dor de alma não tem o poder de parar as engrenagens do mundo. Aprendi dia desses. As vezes, algumas atitudes demandam uma força astronômica, mas ainda assim é preciso tomá-las. Se não eu, quem?

Um dia, o amor acabou. Antes ele do que eu.


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