Sobre bicicletas e recomeços
- 23 de jun. de 2017
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Sempre ouvi dizer que a dor é parte fundamental da vida. Faz parte do processo cura, do corpo e da alma. Por muito tempo eu botei essa tal verdade na lista das coisas que só devem ser ditas quando um coração está cansado demais pra ouvir qualquer outra coisa que não seja um clichê. Os clichês funcionam bem por uma razão, é preciso admitir, eles confortam.
Mas essa coisa da dor necessária e inevitável, acho que é como machucado daqueles que a gente faz quando é criança e cai de bicicleta. Você se lembra?
A gente pedala com a maior força que nossas finas canelas são capazes de gerar, sente-se voando, com aquele vento de férias batendo no rosto. Aí vem o tombo. Primeiro, se sente o impacto, o choque. Joelhos, pés, calcanhares e, se você for bom de reflexo, palmas das mãos esfolam-se no chão. Se não for, pode cair até de cabeça. Depois, às vezes sangra.
Na primeira noite, a gente adormece de curativo, meio sem achar posição que não incomode. Todo toque dói. Nos dias que seguem, o que estava aberto dá lugar a manchinhas roxas doloridas, casquinhas, quase cicatrizes. Dói as vezes, mas a gente já pode botar os dois pés no chão outra vez. Não manca. Já consegue virar de lado pra dormir. Se alguém pressiona, ainda arde, incomoda.
Até que nos mandam tirar os band-aids, por que é bom "deixar respirar". Ta aí. Acho que tudo que veio antes era ainda queda. Era ainda dor. É só quando a gente se deixa livre pra respirar que a cicatrização começa a acontecer de verdade. E, bem, precisa doer pra chegar lá.
O que aprendi com os tombos até aqui é que o sofrimento produz virtudes que a alegria não produz. Nem em um milhão de anos gargalhantes uma alma cresce tanto quanto em uma noite amarga de encontro com seus próprios fantasmas. É bom. É necessário. É o único jeito de se manter vivo. Não vai mesmo doer pra sempre.
Um dia, a gente acorda, vê que faz sol lá fora e sente vontade de andar de bicicleta outra vez.

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