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Eu queria ser lida.

  • 21 de out. de 2017
  • 1 min de leitura

Inquieta. Como se o horário mudasse, o clima esfriasse e a noite encurtasse de uma só vez, aqui dentro.


Inquieta. Sem saber se o que coração quer é dizer ou calar. Aquietar ou explodir. Assim, na tensão de contrários e sem sombra de meio termo, que é de longe a coisa mais insuportável da nossa existência.


Náusea. Um não sei quê não sei de onde que me põe a sentar e levantar, rolar na cama da direita pra esquerda, dos pés à cabeceira. Costas para cima, costas para baixo. E nada. O nó. Não desata, não faz-se laço. É cego, e quem o cegou fui eu. Quero ler. Achar-me nas poesias pessimistas de Drummond, no sofrimento exagerado de Florbela e conformar-me com os conselhos de Clarice.


Pessimista, exagerada e conformada, é como me diz aquele espelho que mostra o lado de dentro da gente. Aquele que é quase sempre feio. E nada.


Quero escrever. Usar as palavras que eu mesmo pari, que chegarão ao texto ainda sujas de sangue, do meu sangue. Com elas, digo o que eu quiser. Me faço livre e rumo um vôo que não dura mais que o de um avião de papel, miserável.


As palavras não me servem. Feito filhos de mulher velha, deixaram-me o ninho vazio. Aí eu entendi.


Não queria ler, não queria escrever. Queria mesmo era ser lida. Queria que me lessem os textos e os olhos.


E nada.

 
 
 

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