Mês das mulheres. Para quem?
- 16 de mar. de 2018
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Marielle,
Gostaria de pedir desculpas por fazer uma carta aberta em teu nome, mas eu realmente não sei para quem devo gritar. Eu, branca, classe média. Não sei para quem reclamar, para quem devo chorar.
Hoje pensei em ti o dia inteiro. Pensei em como a mulher na política não tem voz, no quanto de desaforo temos que engolir todos os dias. Ser mulher é sustentar uma bandeira de militância tão pesada que ás vezes a vontade é de sentar e desistir. Ser mulher é ressistência do início ao fim, e eu sei que você conseguiu plantar a melhor semente que poderiamos ter.
Você não sabe, mas hoje o Brasil inteiro chorou por ti. Eu mesma, que não tive cabeça nenhuma para marchar em prol da tua voz, chorei por ti. O DIA INTEIRO. É inaceitável, difícil de engolir. Me sinto refém, calada por uma ditadura silenciosa em que as pessoas se cegam, não querem ver o que acontece e seguem suas vidas normalmente.
Aqui em São Paulo, as coisas acontecem de uma forma tão dinâmica, que fica muito difícil acompanhar. Mas eu sei que segundo o G1, 272 mulheres foram assassinadas no primeiro semestre de 2017. 30%, vítimas do próprio marido. Mas eu sei que esse não foi o seu caso. Para falar de ti, preciso voltar para 1964.
Segundo a Comissão Nacional da Verdade, são reconhecidas e registradas 434 mortes e desaparecimentos pela Ditadura Militar. Claro, quem leu Daniela Arbex, Caco Barcellos e ao menos deixou um pouco da alma no Museu da Resitência, sabe que foram muito mais. Você, ao denunciar que a Polícia Militar do 41º batalhão do Rio de Janeiro aterroriza e violenta o povo de Acari, levou 9 tiros, sendo 4 em sua face.
Não consigo acreditar. Escrevo, aos prantos, sem nenhuma perspectiva de melhora.
Ser mulher já é um desafio nato. Mas ser mulher, negra, periférica, mãe e vereadora... Mulher! Tu merecia ser acordada por aplausos. Mas hoje, você foi velada por 1 hora e meia na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, ali, na Cinelândia, às 14:30.
Eu estava em casa. Chorando.
Conversei com algumas amigas negras. Hoje, passei a noite bebendo com uma. Ninguém consegue acreditar. Não parece ser verdade de tão absurdo que soa. Somos animais, pessoas irracionais que te perseguem por mais de 4 km enquanto tu saia de uma reunião de mulheres negras.
São 1:35 da manhã.
Eu me recuso a dormir. Me recuso a fechar os olhos e saber que enquanto durmo tranquila, mulheres negras morrem.
O batalhão que você denunciou é o que mais mata no RJ. Você, cumpriu o teu papel do início ao fim ao ser nomeada Relatora de Comissão da Intervenção e que, em apenas 13 dias de exercício de mandato, morreu por falar a verdade.
Marielle, presente.
Hoje e sempre.
Eu sei que Deus está te recebendo com todo o amor que Ele pode dar. Obrigada, de todo o coração.
Estamos com você.

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