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Afinal, o que eu fiz?

  • 12 de jun. de 2018
  • 2 min de leitura

A janela embaçada pelo frio lá fora me fez lembrar do dia em que decidi ir para a praia na chuva. Descendo a serra sem pensar, indo para o nível do mar na certeza de que ali eu ficaria melhor. A noite, as pranchas de surfe sendo guardadas no apartamento ao lado, as gotas escorrendo pelo vidro do carro. Pranchas que nem minhas são, a casa, que também nunca vira antes.


Depois daquele dia, passei semanas olhando para a janela do meu apartamento tentando entender o que aconteceu, em qual parte da vida eu dei um nó que não consigo desatar. Aonde foi que perdi o controle naquela viagem? Porque segui a linha, que de tão tênue, parei no descaso?


No fim de tudo, onde foi que eu errei?


Abro meu caderno de anotações porque eu sei que naquele dia eu escrevi alguma coisa antes de derrubá-lo na taça de vinho sem querer, ao imitar o escândalo que você deu horas antes. Além do cheiro de madeira e a nova cor vermelho-sangue, não consegui ler nada. Você me fazia escrever de lápis porque gostava de mudar os finais.


Você me fazia escrever de lápis, porque achava que apagando as letras, apagaria o que me fez. E deve ser por isso que naquele dia voltei para São Paulo tão rápido.


Fazem três semanas, mas a falta do café coado no pano só me incomodou hoje. Eu acordei, olhei o relógio e senti o cheiro do café. Aquele que você fazia para se redimir. Aquele que você fazia toda semana.


Aquele café. Que eu tinha medo, porque eu sabia que iria começar tudo de novo.


Não consigo me lembrar daquele dia, mas daquela chuva eu lembro bem. Foi quando eu me dei conta que precisava me libertar de você. E eu fiz.


Alguém poderia me explicar o que eu fiz?


 
 
 

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