Cara somos como aquela música do Pink Floyd
- 15 de jul. de 2018
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Ela revirou a bagunça da bolsa, procurando batom cor de terra, destampou, se olhou no retrovisor e contornou seus lábios e os pressionou, se olhou por 5 segundos. Eu a observei é como se ela tivesse se perguntando, quantas pessoas ela deixou no retrovisor? Ou quantos sinais deixou passar perdidos como cada papel de bala na sua bolsa.
Passou as pontas dos dedos na raiz dos cabelos na esperança de ganhar algum volume. Alinhou suas sobrancelhas grossas e treinou alguns sorrisos, forçados, suaves, naturais. Escorpiana com ascendente em capricórnio, tem sangue italiano e brasileiro. Aprendeu desde cedo que a vida é maré alta, tem dias que é baixa. É lua cheia, e minguante.
Ela diz, depois desconversa, diz entre firulas e entrelinhas:
Me olhou e disse:
-Cara somos como aquela música do Pink Floyd - as mesmas almas perdidas, com os mesmo velhos medos.
-O que? Eu perguntei.
-Sim, o que somos afinal?
- Nada - ela respondeu quase que indiferente
-Já que tocou nesse assunto não se surpreenda se no meio do caminho perceber que se importa com isso.
-Não vou!
-Estou cansada de falar, no final da noite ninguém se importa com tudo isso.
-Mais uma vez?
-Deixa eu adivinhar? Quem te machucou assim para você criar esse casco? Até quando vai continuar fingindo que é uma sociopata impossível de sentir algo?
-Não sou, só estou perdida.
-Tá tudo bem?
-Não, hoje tirei tudo da minha estante, inclusive você e joguei na parede
-Promete não esquecer de mim, quando eu for de vez?
-Se você for forte o bastante deixará ir meu bem.
-Sabe, é como um caleidoscópio de pessoas e os traumas que elas deixam na gente não é?
-Do que você está falando?
-Eu to falando que toda vez que eu te olho, você nunca tem um momento de vulnerabilidade, mas ele está ali, mesmo que seja em um piscar de olhos.
-Todos me disseram sempre pra seguir em frente, e é o que tenho feito desde então.
-Mas você não acha que as vezes é preciso ficar e pagar para vê?
-Quando somos jovens e estúpidos e queremos ter histórias para contar
-E você quer enganar quem?
-Ninguém! Só estou brincando. Eu sei que sem nada disso a vida não faz nenhum sentido, mas será que tem que fazer? Acho que no final ninguém é tão forte assim, talvez esse seja um pedacinho de uma história que eu tenha visto em um filme. Li em algum livro ou poema do Caio Fernando de Abreu.

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