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E depois, o que sobra?

  • 2 de ago. de 2018
  • 2 min de leitura

Aurora costumava me alegrar aos finais de semana quando eu era pequena. Ela tinha uma barraca de crepe no centro de artesanato do Embu, onde eu passava horas e horas rodando o mesmo poste e me enchendo de crepe de chocolate. Se eu soubesse o quanto sentiria falta, teria pedido mais.


Na casa dela tinha um pé de limão-rosa. Descobri anos depois quando fui fazer um suco e minha vó me contou. Mas o fato é que eu lembro de correr pelo Embu com a senhorinha que conhecia todos. Ela me conhecia bem, me viu nascer. Ela é minha tia avó sem ser. Aurora tinha uma barraca de crepe no centro do Embu, ela tinha sim.


Fazíamos muito churrascos, na casa dela também. E não podia brincar de barbie na mesa porque já estava forrada para colocar as bandejas de comida. Ela é especial, muita coisa mudou desde quando ela.


Se foi. Assim, sem deixar rastros e sem avisar. Ela viajou e quando voltou para o Embu, o crepe não estava lá. Quando fui no enterro, lembro de tirar os sapatos na porta de casa. Minha cabeça, pequena na época, tinha certeza que a enconraria semana que vem, na barraca do crepe.


Nunca mais disse para ninguém o quanto ela me faz falta. Ela e o centro do Embu, dando bom dia para todo mundo, sabendo todos os nomes. Rodando naquela poste, na frente daquela loja de quadros em uma das esquinas, bem aonde ela costumava ficar. Eu não sei nem se a luz dele acende, eu nunca vi acender.


O fato é que a vida é feita de ganhos e perdas. Talvez mais perdas do que ganhos e se você sentir que está ganhando demais, talvez seja porque você já está perdido. Os objetos perdem o valor, as viagens não importam mais. Você faz o que te disseram para fazer, e no fim, você vai em paz. Vendo assim, nada parece fazer sentido.


E talvez nem tenha.


E os empregos que perdemos, amigos que deixamos e amores que passaram. O dinheiro que gastou em cerveja para esquecer aquela garota, as noites não dormidas trabalhando. Todo o sacrifício, um desperdício. Sabemos que precisa ser assim, sabemos que o ciclo nunca nos larga, nem decepciona. Sabemos que amanhã, mesmo que esteja passando mal, você deve encarar mais um dia.


Seria melhor passar o resto da vida na floresta. Mas mesmo lá, a vida não melhora. Depois de tudo isso, e só depois de passar por isso, iremos ver que no fim, não sobra nada.


Somos pós disfarçados de ego, a competição para chegar ao topo do fracasso.


Poucas pessoas conseguem ser Aurora. A senhora com muitas histórias para contar, lembrada por todos. São essas, as que deixam saudade, que valem a pena se lembrar as 02:05 da manhã. Algumas pessoas valem a pena lembrar.


Vivas ou não. Ainda valem.

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